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“A fotografia é uma espécie de patinho feio das artes”

Augusto Brázio, série Vende-se, 2012 | Diogo Simões, série Noct, 2012

Durante a adolescência visitava as bancas de jornais para folhear revistas de fotografia e perscrutar o mundo através dessas janelas imagéticas. Mais tarde, tornou-se um coleccionador de revistas compulsivo, dedicou-se ao estudo da história da fotografia em Portugal e alimentou o interesse por essa cultura visual. Jornalista e autor do blogue Arte Photographica, Sérgio B. Gomes tem integrado júris de prémios de fotografia e é curador de exposições. Curioso e atento aos novos talentos da fotografia contemporânea nacional, defende que Portugal tem fotógrafos de grande qualidade, mas acredita ser necessário um esforço e investimento do país e das suas instituições para valorizar a fotografia ao nível nacional e internacional.

Onde e quando surgiu o gosto pela fotografia que te fez “trabalhar o olhar”?
É sempre uma construção a partir de circunstâncias muito diversas. Mas acho que posso ligar a minha atracção pela fotografia às revistas. Numa fase que se pode chamar de descoberta, na adolescência, eu era alguém a viver no Alto Minho, numa aldeia pequena, que quando chegava a uma banca de jornais e revistas sentia uma enorme curiosidade de folhear e de descobrir o que estava lá dentro, sobretudo as publicações que davam mais destaque à fotografia e que me mostravam alguma coisa para além da paisagem de montanhas e campos verdes que me rodeava. As revistas ligadas à fotografia chegavam a conta-gotas, como por exemplo a revista “Photo”, que não mostrava só mulheres despidas na capa. Na verdade, foi uma revista muito importante na divulgação da fotografia. Publicava bons ensaios ligados à moda e ao estilo, tinha crítica, e fazia divulgação de exposições e de livros que iam sendo publicados… Acho que posso ligar minimamente a minha curiosidade e um afecto particular em relação à fotografia à revista “Photo”. Mas não só. Havia outras relacionadas com o surf – lembro-me da brasileira “Fluir” -, o skate ou a música. Eram publicações muito visuais, paginavam a fotografia com dimensão e sem medo – durante muitos anos foram as janelas que me permitiram olhar para outros sítios.

Fui um comprador de revistas compulsivo e esta foi a primeira “escola” que me estimulou o olhar. A partir delas fui percebendo como as fotografias eram feitas e o que diziam, em que circunstâncias eram paginadas e como eram tratadas graficamente.

Mais tarde, comecei a olhar mais atentamente para a história da fotografia em Portugal e a ler os ensaios que costumam servir de base para problematizar a imagem fotográfica. Escrevi uma tese que se relacionava com uma exposição internacional de fotografia que decorreu no antigo Palácio Cristal, no Porto, em 1886. Depois fiz investigação para um trabalho sobre a passagem da ilustração para a fotografia nos jornais diários, entre o séc. XIX e o séc. XX. Folheei cerca de dez anos de um jornal diário em que essa passagem aconteceu. Foi um trabalho hercúleo e que me custou bastante!

Ser júri é um trabalho de responsabilidade. Como te sentes nesse papel?
Fiz parte de alguns júris e gosto desse trabalho porque se trata de sublinhar, perante os demais, o talento de alguém. Assemelha-se ao papel de um garimpeiro. Chegam centenas de portfólios a uma mesa onde estão várias pessoas e trocam-se ideias. Esse cruzamento de saberes e personalidades dá muita intensidade ao momento em que se escolhe. São dias muito intensos, extenuantes intelectualmente, mas ao mesmo tempo gratificantes, fazem-me feliz por encontrar alguém que, em potência, pode vir a dar passos importantes na fotografia ou noutras artes. Este exercício de escolha é muito importante porque dá a oportunidade de alguém revelar o seu universo visual e as suas ideias. Pensar que a nossa escolha pode vir a mudar a vida de alguém é um estímulo muito grande.

E a curadoria…
Fiz pouco trabalho de curadoria, mas é muito diferente. Num júri é tudo mais rápido. Temos de decidir num tempo acelerado e as decisões precisam de ser muito focadas. São momentos em que a emoção e o impacto mais imediato podem decidir tudo. A curadoria é diferente, envolve a procura de uma ligação forte com o autor, o estudo do seu percurso. É preciso pôr tudo em perspectiva para se conseguir fazer uma aproximação cuidada àquilo que se quer mostrar. Somos um bocadinho maestros, na medida em que se pode dar mais ênfase a uma ou outra parte de um trabalho ou de uma obra. Nesse papel sinto-me um pequeno maestro, alguém que tem uma batutazinha na mão.

Esse papel de maestro estende-se também à exposição e à capacidade de direccionar ou encaminhar o olhar do público…
O momento expositivo da fotografia é muito marcante. Ela pode ser muito plástica, embora tenhamos da fotografia uma ideia muito rígida, fechada numa moldura. Parece que não queremos dessacralizar o que lá está dentro e temos a tendência para a tratar com uma rigidez maior, mas a fotografia é tão plástica como outras artes e o suporte onde ela existe não tem de ser um caixão. É bom olhá-la com essa vida e com essa dinâmica. Embora ache que isso se faz pouco. Normalmente os fotógrafos são muito conservadores na maneira de mostrar as suas imagens. Mas se olharmos para a história de exposições no séc. XX há exemplos extraordinários, sobretudo entre os anos 20 e os 50, nos quais se fizeram exposições com uma plasticidade incrível.

O papel do curador também é explorar novas dinâmicas sobre o espaço expositivo…
Sim, e é também estimular a energia que pode vir das imagens. Essa energia pode ser potenciada dando plasticidade ao espaço expositivo em que se mostra a fotografia. Não gosto nada de olhar para a fotografia como uma coisa sacra, inviolável. É uma das coisas que mais me custa. E isto não quer dizer que tenhamos de fazer um circo constante com as imagens fotográficas – por natureza elas já são portadoras de mensagens fortes e interpelativas, pelo que que temos de ter algum cuidado para não as transformarmos numa amálgama de mensagens ou em ruído visual sem contexto ou nexo.

O que falta a Portugal para ter um fotógrafo reconhecido mundialmente pelo grande público?
Nós temos fotógrafos de nível mundial. Não temos falta de qualidade. Aliás, em várias áreas da fotografia temos nomes que poderiam estar perfeitamente ao lado de outros que nós nos habitámos a considerar de grande mérito. Os nomes que me vêm imediatamente à cabeça são os de Paulo Nozolino, José Luís Neto, António Júlio Duarte, Patrícia Almeida e Augusto Brázio ou, de outra geração, os de José Pedro Cortes, André Cepeda, André Príncipe, entre outros. Temos autores com mérito inquestionável, com trabalhos coesos e de muita qualidade que estão ao nível dos melhores. Mas este país tem dificuldade em mostrar-se e em mostrar. E esta tarefa não depende individualmente dos fotógrafos, por mais força que o seu trabalho possa ter. Se não for à boleia do esforço de um país ou do esforço de instituições com poder de promover a cultura além-fronteiras, torna-se muito difícil. E creio que nas últimas décadas, esse esforço tem faltado.

Essa boleia passaria, por exemplo, por incluir fotógrafos nas comitivas governamentais que visitam outros países?
Os apoios mais importantes não são os bilhetes de avião para acompanhar comitivas. Os países e os governos podem ajudar num nível mais terreno, nos bastidores. Podem ajudar a suportar trabalhos na sua origem, na sua fase de criação, ajudas que devem ser naturalmente muito ponderadas e sujeitas a escrutínio. E depois podem dar condições para que sejam mostrados com qualidade e nos sítios certos.

Esse esforço depende de um conjunto de intervenientes e de uma cadeia de valor que tem de ser criada. Há um mercado ou indústria do cinema em Portugal, também encontramos um mercado nas artes plásticas, mas não na fotografia…
É verdade, não há. Mas a fotografia tem particularidades que não são comparáveis a outras artes – parece que tudo faz para se desvalorizar (é facilmente reproduzível, é múltipla, é comum, é fácil de criar…). Apenas um país com um grau de cultura visual elevado consegue criar um mercado ligado à fotografia. Não sei se se ouvirá alguma vez falar em Portugal numa indústria da fotografia como nós a relacionamos com o cinema, por exemplo.
Em Portugal não se valoriza a fotografia como ela deveria ser valorizada. Bem sei que é uma frase feita que já se ouviu muitas vezes, mas andamos a chorar constantemente esta lengalenga e a dizer que a fotografia é uma espécie de patinho feio das artes. O certo é que tivemos boas iniciativas ligadas à fotografia e a outras artes visuais, que depois foram perdendo um pouco a força ao longo dos anos. Por exemplo, os Encontros de Fotografia de Coimbra que foram um marco durante muitos anos e deram-nos a ver autores incríveis. Questiono-me porque é que o LisboaPhoto ficou nas duas edições. À sua maneira, e fora dos grandes centros, os Encontros de Imagem de Braga, está a tentar reanimar-se para que possa voltar a ser uma paragem obrigatória nos eventos culturais do país. Depois há a Bienal de Fotografia de Vila Franca de Xira mais ligada ao lançamento de talentos, e que também tenta agora voltar à força que já teve no início. Gostava que estes encontros fossem mais fortes e mais estáveis, que fossem regularmente de qualidade, como vejo a acontecer noutros países. Não estou a dizer que os festivais são a única solução para se criar dinâmica, mas estes encontros ajudam a fazer reflexões e pontos de situação, servem para sabermos o que se está a passar à nossa volta.

Vilém Flusser (Ensaio sobre a fotografia, 1998) escreveu que “o Homem, ao invés de se servir das imagens em função do mundo, passa a viver o mundo em função de imagens”. Hoje em dia proliferam dispositivos que permitem produzir imagens, fotografias e fotógrafos “instantâneos”. Como interpretas esta proliferação de imagens?

Temos cada vez mais um vício da imagem. A imagem tornou-se epidérmica, algo que está agarrado à pele, que respira connosco, que faz parte de nós naturalmente. Quando somos privados dessa panóplia de dispositivos que têm e fazem imagem parece que ficamos com falta de alguma coisa, como uma droga. Estamos num ponto de enorme saturação da imagem. Há imagens por todo o lado, fazemos imagens de tudo e mais alguma coisa. Isto faz com que tenhamos mais dificuldade em escolher. Ficamos com menos capacidade de contextualizar, de reconhecer a singularidade, a identidade de determinado autor ou de determinada obra. Poderá haver um adormecimento, uma postura acrítica.
A maneira como a fotografia nos influencia hoje é muito diferente da maneira como nos influenciava quando eu comprava revistas de surf ou de música no início dos anos 90. Também perdeu um pouco essa qualidade de nos transportar para outro lugar, porque agora conseguimos isso facilmente. Talvez viajemos hoje mais facilmente com menos imagens, pela palavra, por exemplo.

Fotografas?
Não, nunca tive um apelo particular por fotografar. Tenho as coisas básicas que todos têm, como Instagram, mas não fotografo com vontade de construir um discurso visual particular. Já há tantos fotógrafos de qualidade… Eu seria medíocre. Percebo como o dispositivo funciona. Fiz alguma formação técnica, percebi o mundo da revelação ainda na fase analógica, mas tudo isso com uma intenção que não passava de compreender os dispositivos e os suportes. Conhecendo a técnica, a mecânica, a química, a óptica ou a electrónica ligadas à fotografia creio que consigo problematizá-la melhor. Mas a minha ambição acaba aí.

Sérgio B. Gomes por Rui Gaudêncio

Sérgio B. Gomes nasceu em Covas, V. N. Cerveira, em 1975. É licenciado pela Escola Superior de Jornalismo do Porto. É jornalista do Público desde 1999. Desde 2007 assumiu vários cargos de coordenação neste jornal, sendo agora director-adjunto com responsabilidade nos suportes digitais. Desenvolveu vários trabalhos de investigação na área da história da fotografia em Portugal, nomeadamente “O Aparecimento da Fotografia na Imprensa Portuguesa”, “Exposição Internacional de Fotografia – Porto, 1886”. Em 2007 foi comissário da exposição “Ponto de Vista”, produzida durante a realização da série de documentários “Portugal, um retrato social”, da autoria do sociólogo António Barreto. Entre 2005 e 2015 manteve o blogue Arte Photographica, onde divulgou os mais variados temas e acontecimentos relacionados com a fotografia em Portugal e no mundo. Foi júri de vários prémios e concursos de fotografia, nomeadamente do Prémio Novos Talentos FNAC Fotografia. Escreveu ensaios para vários fotolivros de autores portugueses, entre os quais David Infante (BES Revelação 2008) e António Pedro Ferreira (Casa Fernando Pessoa, 2012). Assinou artigos de fotografia em revistas especializadas. Em 2014, assumiu a curadoria da Bienal de Fotografia de Vila Franca de Xira, para a qual seleccionou trabalhos de Augusto Brázio e Diogo Simões. Escreve sobre fotografia no Público, ao serviço do qual cobriu vários festivais e entrevistou dezenas de fotógrafos.

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