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Os segredos de A Luz de Lisboa em retrospectiva

Fotografias gentilmente cedidas pelo Museu de Lisboa

A Luz de Lisboa maravilhou pela capacidade de expor uma multiplicidade de perspectivas sobre a tão elogiada luz da cidade. Cerca de 18.000 pessoas visitaram a exposição que decorreu a par do Ano Internacional da Luz. Joana Sousa Monteiro, directora do Museu de Lisboa, fala-nos da arriscada e ambiciosa exposição e dos seus resultados.

A exposição A Luz de Lisboa fechou recentemente. Depois de oito meses de exposição o balanço é positivo?
O balanço é mesmo muito positivo. Foi uma exposição muito especial para o Museu de Lisboa e para mim, pessoalmente, também. Especial, porque marca um momento de viragem da evolução deste Museu já iniciada em 2014, mas assumido com outra envergadura em 2015; porque o acolhimento do público foi muito bom, tanto em termos de número de pessoas, como, sobretudo, no que diz respeito às reacções de portugueses e estrangeiros, de franco entusiasmo e encantamento.

A Luz de Lisboa tornou-se “mais clara” para o público que a visitou?
Tornou-se, de facto. Para o público que a visitou e para nós que a desenvolvemos e produzimos. Dos comentários mais frequentes à exposição foi precisamente o que se podia aprender na exposição sobre a luz, cruzando a perspectiva científica com a artística e cultural. Há, realmente, motivos físicos, da natureza da luz natural que banha Lisboa e da própria meteorologia habitual em Lisboa que ajudam a explicar porque é que a luz de Lisboa é tão límpida, clara, e, para nós, “bonita”. O número de horas de sol descoberto, os ventos que temos, a topografia da cidade, a latitude e a proximidade do rio são factores essenciais. Mas só o são em pleno quando coincidem com os materiais e as cores que têm sido maioritariamente usados em Lisboa, tais como a branca calçada portuguesa no pavimento, as cores amareladas ou ocres e rosas nas fachadas e os azulejos de exterior.

Há um longo percurso de investigação até chegarmos ao resultado “exposição”. Acompanhou todo o processo… como foi essa experiência?
Foi uma experiência de aprendizagem para mim, como creio ter sido para todos os que se envolveram no projecto. Diria mesmo que foi uma sorte poder ter aprendido com cientistas especialistas em física com valências distintas e complementares entre eles. Foi também excelente ter visto de outros modos imagens, objectos e paisagens urbanas, com a ajuda dos especialistas em cinema e em fotografia com quem tivemos o gosto de trabalhar. Como acontece em outros projectos, começámos com muitas dúvidas, e terminámos com mais dúvidas ainda, embora também com respostas muito interessantes. Posso dizer-lhe que passei, eu própria, como de resto os comissários e outras pessoas da equipa, a ver a cidade através da sua luz, com outros olhos.

Conciliar diferentes linguagens nesta exposição multidisciplinar, cruzando diálogos entre as ciências e as artes exige um vasto número de colaboradores. Como foi “edificar” este arriscado projecto sobre algo que não se pode expor, como refere no seu texto publicado no catálogo?
A ideia era, de facto, arriscada, mas acabou por correr muito bem porque tivemos a sorte de encontrar uma equipa excelente, dedicada e que nunca desistiu de procurar as melhores soluções, desde logo a começar pelos comissários Ana Eiró e Acácio de Almeida. Foi depois necessário ir chamando consultores, tanto para as áreas científicas como para as artes e, ainda, para a parte da publicidade, a direcção do programa Imagens de Marca, que também se juntou com muito entusiasmo a este projecto expositivo, sendo que é ainda de referir o excelente trabalho do designer Carlos Bártolo que acompanhou todo o processo. Não diríamos que foi fácil, mas podemos afirmar que as recordações das sessões de trabalho são de profícuo trabalho de equipa, de aprendizagem colectiva, de surpresas, de encontros.

Qual o feedback do público em termos do espaço expositivo e da “arquitectura” da exposição?
O espaço do primeiro andar do Torreão Poente é muito especial, não só pelas características patrimoniais do edifício, como pela sua localização única, de frente para o Terreiro do Paço e de frente para o Tejo. Dado o tema da exposição, quisemos, equipa curatorial e designer, tirar o máximo partido das fabulosas janelas do edifício, de modo a que o que estava “dentro” pudesse ter continuidade com o que se via “fora”. E, a avaliar pelos muitos comentários do público nacional e estrangeiro, parece ter sido um objectivo atingido, mesmo nos dias mais cinzentos do Inverno. Claro que o facto de o edifício estar claramente a necessitar de obras de restauro e de adaptação a museu – o que tencionamos conseguir fazer em breve -, faz com que existam algumas questões espaciais que tornam difícil ali conceber e montar exposições, embora estes sejam aspectos largamente suplantados pela beleza do local e da sua posição na baixa lisboeta.

Depois de um desafio como este, que projectos/ideias estão na calha?
Este desafio enquadra-se num outro muito mais vasto que é o da remodelação de um museu municipal, já centenário, num museu de cidade moderno e atractivo. Os projectos são muitos, tanto para os quatro restantes espaços do Museu de Lisboa, nomeadamente para o Palácio Pimenta (núcleo principal), como para o próprio Torreão Poente do Terreiro do Paço onde, já este ano, irá inaugurar a primeira exposição internacional sobre Lisboa e uma outra cidade do mundo. O mais são surpresas…

Como surgiu a oportunidade de trabalhar com a TE?
A oportunidade de trabalhar com a TE surgiu naturalmente devido ao seu trabalho anterior com as Galerias Municipais de Lisboa que já tinha sido muito positivo. Dada a necessidade de termos um apoio para produção da própria exposição, para os eventos associados e para o acolhimento dos visitantes e a monitorização diária da exposição, contactámos a TE para se associar a nós neste projecto.

Qual a mais-valia de ter a TE enquanto produtora?
Da nossa experiência, diria que há essencialmente duas mais-valias: a de ter um apoio profissional e proactivo na produção da exposição em tudo o que é necessário executar e controlar, que complementa os conteúdos e o design expositivo que nós asseguramos; e a de poder contar com um acompanhamento permanente no decorrer da exposição, das reacções do público, dos pequenos problemas para resolver, bem como da relação com a comunicação social.

Joana Sousa Monteiro é museóloga. É directora do Museu de Lisboa desde Fevereiro de 2015. Foi assessora da Vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa para a área dos museus e do património (2010-2015). Foi Coordenadora-adjunta da Rede Portuguesa de Museus no Instituto Português de Museus (2000 a 2010), técnica do Instituto de Arte Contemporânea (1997-2000) e colaboradora em dois projectos do Museu do Chiado (1994).
É licenciada em História, variante História da Arte (Universidade Nova), pós-graduada em Museologia (Universidade Lusófona), e pós-graduada em Gestão e Empreendedorismo Cultural e Criativo (ISCTE), sendo docente convidada na área da gestão de museus (Mestrado de Museologia, Universidade Nova). É autora de diversos artigos na área da museologia, membro da direcção da Comissão Nacional Portuguesa do Conselho Internacional de Museus-ICOM (ICOM Portugal), e da direcção do Comité Internacional de Museus de Cidade do ICOM (CAMOC).

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